Ilustrações do conto: “A Salvação de Wang-Fô”, Marguerite Yourcenar

“O velho pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling erravam pelas estradas do reino de Han.

Avançavam devagar, pois Wang-Fô parava de noite para contemplar os astros, de dia, para olhar as libélulas. Iam pouco carregados, pois Wang-Fô amava a imagem das coisas e não as próprias coisas, e nenhum objecto do mundo lhe parecia digno de ser adquirido, excepto pincéis, boiões de laca e de tinta-da-china, rolos de seda e papel de arroz. Eram pobres, pois Wang-Fô trocava as suas pinturas por um caldo de milho-miúdo e desprezava as moedas de prata. O seu discípulo Ling, vergado ao peso de um saco cheio de esboços, curvava respeitosamente as costas como se carregasse a abóbada celeste, pois aquele saco, aos olhos de Ling, ia cheio de montanhas sob a neve, de rios pela Primavera e do rosto da lua no Verão.”

“Ao completar quinze anos, seu pai escolheu-lhe esposa e tomou-a entre as mais belas, pois a ideia da felicidade que oferecia ao filho consolava-o de haver atingido a idade em que a noite serve para dormir. A esposa de Ling era frágil como um caniço, infantil como o leite, doce como a saliva, salgada como as lágrimas. Consumada a boda, os pais de Ling levaram a discrição ao ponto de morrerem, e o filho ficou só na casa pintada de cinábrio, na companhia da sua jovem mulher, que sorria constantemente, e de uma ameixeira que todas as Primaveras se cobria de flores cor-de-rosa. Ling amou aquela mulher de coração límpido como se ama um espelho que não embaciasse, um talismã que protegesse para sempre. Frequentava as casas de chá para obedecer à moda e era moderadamente generoso para os acrobatas e as bailarinas.”

“Certa manhã, encontraram-na enforcada nos ramos da ameixeira rosa: as pontas do xaile que a afogava flutuavam entrelaçadas nos seus cabelos; parecia mais delgada ainda que habitualmente, e pura como as donzelas dos poemas de tempos idos. Wang-Fô pintou-a pela derradeira vez, pois gostava daquele tom verde que recobre o rosto dos mortos. O seu discípulo Ling preparava-lhe as tintas, e tanta aplicação lhe merecia aquela tarefa que se esqueceu de verter uma lágrima.”

“O Mestre Celeste estava sentado num trono de jade, e tinha as mãos engelhadas como as de um velho, embora ele mal contasse vinte anos. A sua túnica era azul para figurar o Inverno, e verde para lembrar a Primavera. O seu rosto era belo, mas impassível como um espelho colocado demasiado alto, que apenas reflectisse os astros e o céu implacável. Dava a direita ao Ministro dos Prazeres Perfeitos e a esquerda ao Conselheiro dos Justos Tormentos. Como os seus cortesãos, alinhados junto às colunas, apuravam o ouvido para sorver a mínima palavra saída dos seus lábios, adquirira o hábito de falar sempre em voz baixa.”

“Meu pai reunira uma colecção das tuas pinturas no aposento mais secreto do palácio, pois entendia que as personagens dos quadros devem ser subtraídas à vista dos profanos, na presença dos quais não podem baixar os olhos. Foi nestas salas que fui criado, velho Wang-Fô, pois haviam organizado a solidão à minha volta para me permitirem crescer nela. Para evitar à minha candura o contágio das almas humanas, haviam afastado de mim a agitada torrente dos meus futuros súbditos, e não era permitido a ninguém passar à soleira da minha porta, não fosse a sombra desse homem ou dessa mulher estender-se até mim. Os poucos velhos servos que me haviam destinado mostravam-se o menos possível; as horas giravam em círculo; as cores das tuas pinturas acendiam-se com a alvorada e empalideciam ao crepúsculo. De noite, quando não conseguiam dormir, olhava-as e, durante cerca de dez anos, olhei-as todas as noites. De dia, sentado num tapete cujo desenho conhecia de cor, repousando as minhas mãos vazias nos meus joelhos de seda amarela, sonhava com as alegrias que o futuro me traria. Imaginava o mundo, com o país de Han ao meio, semelhante à cava e monótona planície da mão sulcada pelas linhas fatais dos Cinco Rios. A toda a volta, o mar onde nascem os monstros e, mais longe ainda, as montanhas que sustentam o céu. E para me ajudar a imaginar todas estas coisas, servia-me das tuas pinturas. Levaste-me a crer que o mar era semelhante à imensa toalha de água desdobrada nas tuas telas, tão azul que pedra que nelas caísse só em safira se podia tornar, que as mulheres se abriam e fechavam como flores, iguais às criaturas que avançam, levadas pelo vento, nas áleas dos teus jardins, e que os jovens guerreiros de corpo esguio postados nas fortalezas das fronteiras eram flechas capazes de trespassar corações.”

“Ao ouvir semelhante sentença, o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca embotada e precipitou-se sobre o Imperador. Dois guardas o detiveram. O Filho do Céu sorriu e acrescentou num suspiro:

– E também te odeio, velho Wang-Fô, porque soubeste fazer-te amar. Matem esse cão.

Ling deu um salto em frente, não fosse o seu sangue manchar as vestes do mestre. Um dos soldados ergueu o sabre e a cabeça de Ling desprendeu-se da nuca como flor ceifada. Os servos retiraram os despojos, e Wang-Fô, desesperado, admirou a bela mancha escarlate que o sangue do discípulo desenhava no pavimento de pedra verde.”

“Wang começou por tingir de rosa a ponta da asa de uma nuvem pousada numa montanha. Depois acrescentou à superfície do mar pequenas rugas que tornavam ainda mais profundo o sentimento da sua serenidade. O pavimento de jade tornava-se singularmente húmido, mas Wang-Fô, absorto na sua pintura, não se apercebia de que trabalhava sentado na água.

A frágil canoa, que engrossara sob as pinceladas do pintor, ocupava agora todo o primeiro plano do rolo de seda. O ruído cadenciado dos remos ergueu-se subitamente ao longe, rápido e vivo como um bater de asa. O ruído aproximou-se, encheu mansamente toda a sala, depois quedou-se, e havia gotas trémulas, imóveis, suspensas das pás dos remos. Há muito que o ferro em brasa destinado aos olhos de Wang se apagara no braseiro do carrasco. Com água pelos ombros, os cortesãos, imobilizados pela etiqueta, erguiam-se em bicos dos pés. A água atingiu finalmente o nível do coração imperial. Tão profundo era o silêncio que se ouviria rolar uma lágrima.

Era mesmo Ling. Trazia a sua velha túnica de todos os dias, e na manga direita mostrava ainda os vestígios de um rasgão que não tivera tempo de consertar, de manhãzinha, antes da chegada dos soldados. Trazia em volta do pescoço um estranho lenço vermelho.”

“O rolo terminado por Wang-Fô estava pousado sobre uma mesa baixa. O primeiro plano era todo ele ocupado por um barco. E afastava-se a pouco e pouco, deixando para atrás de si um leve sulco que logo se fechava no mar imóvel. Já não se distinguia o rosto dos dois homens sentados na canoa. Mas avistava-se ainda o lenço vermelho de Ling, e a barba de Wang-Fô ondulava ao vento.

A pulsação dos remos amainou, depois quedou-se, sumida na distância. O Imperador, inclinado em frente, com a mão sobre os olhos, via afastar-se o barco de Wang, que mais não era do que uma mancha imperceptível na palidez do crepúsculo. Uma neblina de ouro ergueu-se e alastrou sobre o mar. Até que o barco contornou um rochedo que fechava a entrada dos oceanos; a sombra de uma falésia abateu-se sobre ele; o sulco apagou-se da superfície deserta, e o pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling desapareceram para sempre naquele mar de jade azul que Wang-Fô ali mesmo inventara.”

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About Joana Pinheiro

Estudante da Licenciatura de Design de Comunicação - Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

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